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Logged off: O movimento dos jovens que não querem estar nas redes sociais

A internet e sua dinâmica têm influência cada vez maior no comportamento social dos indivíduos. Ao longo de sua evolução, a sociedade foi se adaptando às novas formas de se relacionar, se comunicar e se expressar, encontrando um palco único nas redes sociais. Mas uma tendência tem crescido entre os jovens e chama a atenção de pesquisadores – é o novo perfil de uma geração batizada de “the logged off generation” (a geração não logada, em tradução livre)

Se os indivíduos nascidos após a popularização da internet ficaram conhecidos durante muito tempo como nativos digitais (pelo domínio e fácil trânsito no mundo virtual), parte deles e também dos integrantes da geração anterior, os millenials (nascidos entre os anos 1980 e o início dos anos 2000), passam agora a ser considerados nativos sociais. Em outras palavras, esses nativos sociais estão em contra tendência global, ao uso exagerado das redes sociais.

São jovens, informados, que compram e acessam múltiplos serviços na internet, mas que fogem das redes sociais por diversos motivos, entre eles a anulação de relações concretas, a busca pela privacidade, a ansiedade provocada pela sensação de urgência constante e a baixa autoestima, além da propagação do discurso de ódio e da desinformação. Todo esse ambiente, que muitos consideram “tóxico”, seria então espaço de tensão e não de convergência social.

Todo Mundo?

Esse movimento aparece no levantamento feito pelo projeto independente “Todo Mundo Quem”, do pesquisador Filipe Techera e com co-autoria de Luiza Futuro, que demonstra que cerca de 33% da população brasileira não está nas redes sociais. As pesquisa (que teve fase qualitativa e quantitava, ouvindo pessoas entre 14 e 65 anos, de todas as classes sociais, sobre a sua relação com informação comunicação, relação e motivações para não acessar ou aderir às redes sociais, na primeira, e realizando mais de 11 mil entrevistas nas 15 principais regiões metropolitanas do país na segunda) considerou o acesso nas principais redes sociais utilizadas no Brasil, WhatsApp, Instagram, Facebook e Twitter, e leva em conta a questão social da baixa acessibilidade e conectividade da população brasileira, especialmente entre as classes C e D.

Mas a tendência “logged off” entre os jovens é global. Em reportagem minuciosa sobre o tema, a coluna TAB, do Uol, trouxe números de estudos realizados no Reino Unido que confirmam esse movimento e contrariam a ideia de que é impossível ficar fora das redes sociais no mundo contemporâneo. Uma dessas pesquisas, feita com estudantes de colégios britânicos, mostrou que 63% deles ficariam felizes se as redes sociais nunca tivessem sido inventadas. Outro dado relevante aponta que o número de jovens que considera as redes importantes caiu de 66% em 2016 para 57% em 2018.

Segurança

Os jovens aparentemente não se sentem seguros nas redes sociais e isso pode ter piorado após o escândalo envolvendo a Cambridge Analytica, que violou a segurança de dados de 50 milhões de usuários do Facebook para influenciar o resultado de eleições (o que foi confirmado pelo próprio Mark Zuckerberg). O fato escancarou a fragilidade das redes, que contém centenas de milhões de dados de pessoas de todo o planeta, o que pode ter contribuído para a debandada juvenil. No Reino Unido, um levantamento do YouGov publicado em outubro revelou que 63% dos entrevistados perderam a confiança nas redes sociais e 61% têm mais cuidado com a privacidade das suas postagens.

Ambiente tóxico

Outra pesquisa, do Royal Society for Public Health, também do Reino Unido, mostrou que as redes sociais podem viciar mais que álcool e cigarro. Já os dados apurados em uma publicação da revista científica Lancet mostraram que os sintomas de depressão aumentaram 50% (para meninas) e 35% (para meninos) entre adolescentes de 14 anos que passaram mais de cinco horas por dia nas redes sociais.

A ressignificação do uso desses ambientes pode ser um dos objetivos desse movimento, que continua usufruindo da internet. Talvez isso ainda demore muito tempo para acontecer, até porque as redes sociais acabaram tomando conta de espaços em nosso cotidiano que parecem não funcionar mais sem elas. Mas talvez esse seja também um sinal de que sim, é preciso repensar o modo como nos envolvemos de forma tão rápida e intensa com essas ferramentas, que não são o problema em si, mas sim a maneira que são usadas.

Por Camila Mitye
Equipe Zap